Xmobots amplia investimentos em tecnologias de Defesa e consolida domínio nacional em sistemas não tripulados
Empresa de São Carlos já destinou mais de R$ 220 milhões a soluções para Defesa e Segurança desde 2022 e desenvolve uma família de plataformas voltadas a inteligência, vigilância, reconhecimento, operações navais e autonomia
A consolidação de competências nacionais em sistemas não tripulados vem ganhando espaço na Base Industrial de Defesa (BID) brasileira. Entre as empresas que avançam nesse segmento está a Xmobots, especializada em robótica e sistemas aeroespaciais, que já destinou mais de R$ 220 milhões ao desenvolvimento de soluções para Defesa e Segurança desde 2022. (Xmobots)
Com sede em São Carlos (SP), a companhia desenvolve e fabrica no Brasil plataformas empregadas por instituições como o Exército Brasileiro, a Marinha do Brasil, a Receita Federal e o Centro Gestor e Operacional do Sistema de Proteção da Amazônia (Censipam). A empresa possui cerca de 500 funcionários, incluindo mais de 250 engenheiros de diferentes especialidades. (Xmobots)
O investimento representa uma mudança importante na trajetória de empresas nacionais de alta tecnologia: além de fornecer equipamentos, a Xmobots busca dominar a arquitetura completa dos sistemas, incluindo hardware aviônico, software, sensores, navegação, controle, inteligência artificial, energia e propulsão.
Investimento concentrado em tecnologia nacional
Segundo informações divulgadas pela própria empresa, entre 2010 e 2022 foram aplicados aproximadamente R$ 11 milhões em projetos de pesquisa e desenvolvimento com apoio de instituições como FAPESP, Finep e CNPq.
A partir de 2022, outros R$ 209 milhões foram destinados a projetos voltados à Defesa e Segurança, com participação de parceiros como Finep, Agência Nacional do Petróleo, Gás Natural e Biocombustíveis (ANP), Petrobras, Repsol, Petronas e MBDA. A soma supera R$ 220 milhões investidos no desenvolvimento de capacidades tecnológicas e industriais. (Xmobots)
A estratégia inclui a criação de uma estrutura dedicada ao setor de Defesa, a Xmobots Defense, apresentada durante a LAAD Defence & Security 2025. A unidade reúne equipes e processos direcionados às demandas das Forças Armadas brasileiras e de clientes internacionais. (Xmobots)
Família Nauru amplia aplicações operacionais
A principal expressão dessa capacidade está na Família Nauru, conjunto de aeronaves não tripuladas de diferentes portes e configurações.
O Nauru 100D, plataforma de aproximadamente 9 kg com tecnologia eVTOL, foi desenvolvido para missões de inteligência, vigilância, reconhecimento e aquisição de alvos. O sistema possui autonomia de até duas horas por voo, alcance de até 30 quilômetros e capacidade de receber diferentes cargas úteis.
A plataforma também deu origem a uma configuração UCAV, voltada ao emprego em missões de ataque. Em maio de 2026, durante o Simpósio de Sistemas Não Tripulados da Força Terrestre, a empresa apresentou a capacidade ao Alto Comando do Exército. Em demonstração coordenada entre versões de reconhecimento e ataque, a Xmobots informou ter alcançado precisão de 1,4 metro. (Xmobots)
Já o Nauru 500C ISR, com aproximadamente 25 kg, autonomia de até quatro horas e alcance de até 60 quilômetros, foi desenvolvido para missões de inteligência, vigilância e reconhecimento. A plataforma é utilizada por órgãos de Defesa e Segurança Pública, incluindo a Marinha do Brasil e o Censipam. (Xmobots)
Nauru 1000C ISTAR aproxima indústria e Forças Armadas
Entre os sistemas de maior porte está o Nauru 1000C ISTAR, desenvolvido para missões que exigem maior autonomia, alcance e capacidade de carga. A aeronave possui aproximadamente 181 kg, autonomia de até dez horas e tecnologia VTOL, podendo ser transportada em um contêiner de 20 pés.
O primeiro sistema foi entregue ao Exército Brasileiro em dezembro de 2022, para o 1º Batalhão de Aviação do Exército, em Taubaté (SP). A avaliação técnica e operacional conduzida pelo Centro de Avaliações do Exército (CAEx) foi concluída em julho de 2024, seguida pela experimentação doutrinária em dezembro do mesmo ano. (Xmobots)
O desenvolvimento do Nauru 1000C também alcançou a cooperação com a Marinha do Brasil e a Petrobras. Em janeiro de 2026, as instituições iniciaram um programa estimado em R$ 50 milhões para adaptar a Família Nauru a operações navais e offshore, com requisitos relacionados à resistência à salinidade e à umidade, comunicação via satélite e pouso e decolagem embarcados. (Xmobots)
Arquitetura verticalizada reduz dependências críticas
Um dos principais diferenciais da Xmobots está na verticalização tecnológica. A empresa concentra internamente competências de engenharia aeronáutica, mecânica e eletrônica, além de hardware aviônico, software embarcado, navegação, controle, inteligência artificial, sensores, comunicações e propulsão.
Essa integração permite que diferentes componentes sejam projetados, produzidos, testados e atualizados dentro de uma mesma arquitetura. Para a BID, o domínio desses elementos é estratégico porque reduz dependências externas e amplia a capacidade de manutenção, modernização e evolução dos sistemas ao longo de seu ciclo de vida.
A empresa também desenvolve o sensor giroestabilizado XSIS 222A, inicialmente integrado ao Nauru 1000C ISTAR e posteriormente adaptado para helicópteros e outras aeronaves tripuladas. O equipamento combina sensores eletro-ópticos e infravermelhos, telêmetro a laser, transmissão de vídeo em tempo real e recursos de inteligência embarcada. (Xmobots)
Próxima fronteira: enxames, autonomia e operações sem GPS
A evolução do portfólio inclui projetos voltados a sistemas distribuídos e maior autonomia operacional.
Entre eles está o Nauru 100D Swarm, arquitetura concebida para coordenar múltiplas aeronaves em uma mesma missão. No conceito atualmente em desenvolvimento, três drones realizariam reconhecimento e aquisição de alvos, enquanto outras 27 aeronaves poderiam atuar de forma coordenada a partir das informações coletadas. (Xmobots)
Outra frente envolve o desenvolvimento de sistemas de navegação visual independentes do GPS. A tecnologia utiliza inteligência artificial e câmeras embarcadas para orientar a aeronave por meio de reconhecimento de imagens e odometria visual, ampliando a resiliência operacional em ambientes sujeitos a interferências ou bloqueios de sinais de satélite. (Xmobots)
A empresa também trabalha no Nauru 3000D, plataforma VTOL de maior porte, com propulsão híbrida e até 14 horas de autonomia, concebida para diferentes configurações de missão, incluindo inteligência, vigilância, reconhecimento, transporte de carga e transporte de tropas. (Xmobots)
Capacidade industrial é tão importante quanto o desenvolvimento
A Xmobots informa possuir capacidade instalada superior a duas mil unidades por ano, considerando diferentes plataformas da Família Nauru e o sensor XSIS 222A. Essa estrutura representa um avanço relevante para a indústria brasileira, pois combina desenvolvimento tecnológico, produção seriada e sustentação de sistemas complexos. (Xmobots)
O movimento também evidencia uma transformação no mercado de Defesa. Sistemas não tripulados deixaram de ser apenas equipamentos complementares e passaram a integrar arquiteturas de inteligência, vigilância, comando e controle, reconhecimento e operações de precisão.
Para a Base Industrial de Defesa, o desafio consiste em transformar investimentos em competências permanentes, capazes de atender às necessidades das Forças Armadas, gerar inovação dual-use e ampliar a presença brasileira em mercados internacionais.
A trajetória da Xmobots mostra que a autonomia tecnológica depende não apenas da existência de uma plataforma nacional, mas do domínio dos sistemas que permitem sua operação, atualização e evolução. Nesse processo, empresas brasileiras de base tecnológica podem ocupar espaço crescente em uma cadeia estratégica que combina robótica, inteligência artificial, sensores, aeronáutica e defesa.