Tecnologia e Inovação

Sistemas não tripulados entram no centro da estratégia tecnológica das Forças Armadas brasileiras

Sistemas não tripulados entram no centro da estratégia tecnológica das Forças Armadas brasileiras

Sistemas não tripulados entram no centro da estratégia tecnológica das Forças Armadas brasileiras
Marinha, Exército e FAB ampliam projetos de drones e veículos autônomos e discutem integração, formação de pessoal e participação da indústria nacional

Os sistemas não tripulados estão ganhando espaço estratégico no planejamento das Forças Armadas brasileiras. A evolução de drones e veículos autônomos em diferentes domínios — aéreo, terrestre e marítimo — levou o Ministério da Defesa a reunir representantes da Marinha, do Exército e da Força Aérea Brasileira para discutir capacidades existentes, projetos em desenvolvimento e formas de ampliar a integração entre as Forças.

O encontro ocorreu nos dias 13 e 14 de agosto, na Escola Superior de Defesa, em Brasília, durante o 1º Seminário sobre Sistemas Não Tripulados do Ministério da Defesa. A agenda incluiu pesquisa, desenvolvimento tecnológico, formação de pessoal, experimentação operacional e possibilidades de cooperação entre os diferentes projetos. A Marinha Portuguesa foi a única instituição estrangeira convidada e apresentou sua experiência no desenvolvimento e na experimentação de sistemas não tripulados.

O movimento representa uma mudança importante na forma como o Brasil trata essas tecnologias. Em vez de concentrar a discussão exclusivamente na aquisição de drones, a agenda começa a envolver uma arquitetura mais ampla, que inclui sensores, comunicações, comando e controle, autonomia, processamento de dados e integração entre plataformas.

Do drone isolado ao sistema integrado
Entre os projetos apresentados estão o SUPPRESSOR, da Marinha, o PRIMA, iniciativas de sistemas terrestres não tripulados do Exército e o programa RQ-XBR, associado à Força Aérea.

Na Marinha, o SUPPRESSOR é um sistema de superfície remotamente controlado desenvolvido pela EMGEPRON. O programa prevê a evolução da plataforma e sua integração com meios navais, enquanto a empresa trabalha para ampliar a escala industrial da solução. Segundo o Relatório Integrado de Gestão da EMGEPRON, a primeira unidade do SUPPRESSOR S7 está prevista para iniciar testes de validação de requisitos em 2027.

O PRIMA, por sua vez, integra a estratégia de emprego de sistemas não tripulados no ambiente marítimo, permitindo ampliar a capacidade de monitoramento e controle sem necessariamente colocar uma tripulação em situações de risco.

No ambiente terrestre e aéreo, o desenvolvimento de plataformas não tripuladas amplia o conjunto de capacidades disponíveis para reconhecimento, vigilância, aquisição de informações e apoio às operações.

A tendência é que essas plataformas deixem de ser tratadas como equipamentos independentes e passem a funcionar como componentes de uma rede de sensores e sistemas de comando e controle.

Autonomia tecnológica passa a ser requisito industrial
A discussão sobre sistemas não tripulados também está diretamente relacionada à capacidade da indústria brasileira de desenvolver tecnologias críticas.

O Ministério do Desenvolvimento, Indústria, Comércio e Serviços classifica o setor de defesa como estratégico para a soberania tecnológica, a inovação e a inserção do Brasil em cadeias globais de valor. A própria política industrial de defesa estabelece a importância do desenvolvimento de tecnologias sob domínio nacional, especialmente aquelas com aplicações militares e civis.

Nesse contexto, sistemas não tripulados apresentam uma característica particularmente relevante para a Base Industrial de Defesa: sua arquitetura combina componentes e competências de diferentes setores.

Um único sistema pode demandar sensores eletro-ópticos, radares, sistemas de navegação, inteligência artificial, enlaces de comunicação, software, eletrônica embarcada, baterias, propulsão e plataformas de controle.

Isso cria oportunidades para empresas de diferentes portes participarem da cadeia de fornecimento, inclusive startups e pequenas e médias empresas de tecnologia.

A própria relação oficial de Produtos de Defesa e Empresas Estratégicas de Defesa do Ministério da Defesa mostra a presença de empresas brasileiras associadas a tecnologias como sistemas eletrônicos embarcados para VANTs e plataformas remotamente controladas, sistemas de teleoperação e sensores destinados a UAVs.

Integração entre as três Forças
Um dos principais desafios apontados pela nova agenda é evitar que os diferentes projetos evoluam de forma isolada.

A realização do seminário pelo Ministério da Defesa indica uma busca por maior interoperabilidade entre Marinha, Exército e FAB, permitindo compartilhar tecnologias, conhecimento, infraestrutura de testes e soluções de comando e controle.

A experiência portuguesa apresentada durante o encontro reforçou justamente essa dimensão. Segundo a Marinha Portuguesa, o seminário teve como objetivo ampliar a consciência situacional sobre capacidades atuais e futuras e promover sinergias e integração conjunta entre os três ramos das Forças Armadas brasileiras. A participação portuguesa também despertou interesse de representantes da indústria brasileira.

Para a indústria, a integração pode representar uma vantagem adicional: soluções desenvolvidas para uma Força poderão, quando tecnicamente aplicáveis, encontrar mercados em outras áreas da Defesa.

Uma nova cadeia tecnológica para a BID
O avanço dos sistemas não tripulados coloca a Base Industrial de Defesa diante de um mercado que combina defesa e tecnologia dual-use.

Sensores, inteligência artificial, análise de dados, navegação autônoma, comunicações seguras e sistemas de controle remoto possuem aplicações que ultrapassam o campo militar e podem encontrar espaço em setores como logística, agricultura, mineração, segurança de infraestrutura e monitoramento ambiental.

A capacidade de transformar essas tecnologias em produtos militares certificados e sustentáveis, porém, dependerá de escala, financiamento para pesquisa e desenvolvimento, continuidade dos programas e previsibilidade de demanda.

Esse é um ponto central para a BID. O desenvolvimento de um protótipo não significa necessariamente a criação de uma capacidade industrial. Para que os sistemas não tripulados se transformem em um segmento relevante da indústria brasileira, será necessário avançar da experimentação para a produção, manutenção, atualização e exportação.

Mercado em transformação
A experiência dos conflitos recentes acelerou a adoção de sistemas não tripulados em diferentes domínios. Para o Brasil, o desafio é transformar essa tendência tecnológica em capacidade nacional.

O movimento coordenado pelo Ministério da Defesa mostra que a discussão já ultrapassou a simples aquisição de drones. O objetivo passa a envolver uma arquitetura integrada de sistemas, formação de pessoal, desenvolvimento tecnológico e participação da indústria.

Para a Base Industrial de Defesa, isso abre uma nova frente de negócios e desenvolvimento tecnológico. Empresas capazes de fornecer sensores, software, inteligência artificial, comunicações, eletrônica embarcada e sistemas de controle poderão ocupar posições relevantes em uma cadeia que tende a crescer nos próximos anos.

A questão agora é transformar os projetos existentes — como SUPPRESSOR, PRIMA, RQ-XBR e as iniciativas terrestres — em programas sustentáveis, com escala industrial e capacidade de evolução tecnológica.

Nesse cenário, os sistemas não tripulados deixam de ser apenas uma nova categoria de equipamentos militares e passam a representar uma plataforma de integração entre Defesa, indústria e tecnologia nacional

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