Rio Grande do Sul mantém posição estratégica na BID, mas enfrenta desafios de competitividade
Indústria gaúcha reúne 20 empresas credenciadas pelo Ministério da Defesa e responde por 68,2% da fabricação nacional de equipamentos pesados, armas e munições; gargalos logísticos, fiscais e de mão de obra pressionam o setor
A participação do Rio Grande do Sul na Base Industrial de Defesa (BID) revela uma combinação de escala industrial, capacidade tecnológica e desafios de competitividade. O cenário foi discutido em 2 de setembro, durante o painel Econômico e Científico-Tecnológico da Jornada de Estudos da Escola de Comando e Estado-Maior do Exército (ECEME), realizado pelo Sistema FIERGS, por meio do Comitê da Indústria de Defesa e Segurança (Comdefesa).
O encontro reuniu cerca de 30 oficiais e teve como um dos objetivos ampliar a integração entre academia, governo e indústria — a chamada tríplice hélice — em torno de temas relacionados à Defesa Nacional, inovação, pesquisa e desenvolvimento tecnológico. (FIERGS)
Um polo industrial além do eixo tradicional
Os dados apresentados pela FIERGS ajudam a dimensionar a relevância do estado para a BID. O Rio Grande do Sul possui mais de 52 mil indústrias, equivalentes a 8,3% do total nacional, e conta atualmente com 20 empresas credenciadas junto ao Ministério da Defesa.
Essas empresas atuam em diferentes segmentos, incluindo aeronaves, peças, armamentos, munições e componentes da cadeia metalmecânica. A estrutura industrial do estado também apresenta forte inserção internacional, característica que amplia seu potencial para integrar cadeias produtivas de defesa e mercados externos. (FIERGS)
Um dos indicadores mais expressivos apresentados no encontro é a participação gaúcha na fabricação nacional de equipamentos pesados, armas e munições. Em 2024, o estado respondeu por 68,2% desse segmento no país, segundo os dados apresentados pela FIERGS.
A indústria gaúcha também aparece como o quarto maior fornecedor de produtos industriais para a Defesa brasileira, atendendo não apenas demandas diretamente relacionadas a sistemas militares, mas também áreas como saúde, alimentos, veículos, metais, produtos químicos, vestuário e calçados. (FIERGS)
Esse perfil mostra que a contribuição regional para a BID não se limita às empresas formalmente classificadas como integrantes do setor de defesa. Parte relevante da capacidade está distribuída por uma cadeia industrial mais ampla, capaz de fornecer produtos, componentes e serviços utilizados pelas Forças Armadas.
Competitividade é o principal ponto de atenção
A dimensão industrial, porém, convive com obstáculos estruturais.
Segundo a FIERGS, o PIB industrial do Rio Grande do Sul apresentou retração de 1,2% entre 2002 e 2023. No âmbito estadual, a restrição fiscal, com uma dívida de aproximadamente R$ 112 bilhões, reduz a capacidade de investimento público.
A infraestrutura logística também permanece como um fator crítico. Os gargalos existentes foram agravados pelos eventos climáticos extremos, especialmente pelas enchentes de 2024, que afetaram infraestrutura e cadeias de abastecimento. Soma-se a esse quadro a dificuldade de encontrar mão de obra qualificada para atender setores industriais de maior complexidade tecnológica. (FIERGS)
No ambiente nacional, as empresas enfrentam ainda fatores recorrentes de perda de competitividade, como o Custo Brasil, a elevada carga tributária, o custo do crédito e a instabilidade macroeconômica.
Para uma indústria inserida em cadeias de defesa, esses fatores têm impacto que vai além do desempenho empresarial. Custos elevados e dificuldades de financiamento podem afetar investimentos em pesquisa, modernização de plantas, qualificação profissional e capacidade de atender programas de longo prazo.
A BID também é uma questão de desenvolvimento regional
A experiência gaúcha evidencia uma característica importante da Base Industrial de Defesa brasileira: sua capacidade produtiva não está concentrada em um único polo.
Embora São José dos Campos e o eixo Rio-São Paulo concentrem importantes empresas e centros tecnológicos, estados como o Rio Grande do Sul possuem cadeias industriais próprias, com competências que podem complementar programas estratégicos nacionais.
Essa distribuição regional pode ser economicamente relevante para a BID. Uma base industrial mais diversificada reduz concentrações excessivas de fornecedores, amplia a capacidade de mobilização produtiva e cria oportunidades para empresas que não têm a defesa como atividade exclusiva.
O caso gaúcho também demonstra a importância da integração entre indústria, instituições de ensino e pesquisa e estruturas militares. A própria realização do painel com a ECEME colocou a tríplice hélice no centro da discussão, aproximando demandas estratégicas das competências disponíveis no setor produtivo e no ambiente científico. (FIERGS)
O desafio de transformar escala em competitividade
Os números apresentados pela FIERGS colocam o Rio Grande do Sul entre os polos relevantes da indústria brasileira para a Defesa. O desafio, porém, está em transformar essa capacidade instalada em maior produtividade, inovação e participação em cadeias de maior valor agregado.
Para a BID, isso significa criar condições para que empresas industriais consigam investir continuamente em tecnologia, qualificação, certificação e desenvolvimento de produtos. Também significa fortalecer a infraestrutura que conecta essas empresas aos grandes programas de defesa e aos mercados internacionais.
Nesse cenário, a competitividade regional deixa de ser apenas uma questão econômica estadual e passa a integrar a própria discussão sobre resiliência e sustentabilidade da Base Industrial de Defesa brasileira.
A experiência do Rio Grande do Sul mostra, portanto, que fortalecer a BID não depende somente de grandes programas ou empresas estratégicas. Depende também da capacidade de preservar e ampliar uma rede industrial distribuída pelo território nacional — capaz de produzir, inovar, fornecer e sustentar capacidades de Defesa no longo prazo.