Gripen F realiza primeiro voo e consolida avanço tecnológico da indústria brasileira de Defesa
Caça biposto desenvolvido pela Saab em parceria com a indústria brasileira inicia campanha de ensaios e marca nova etapa do programa de transferência de tecnologia entre Brasil e Suécia.
O programa Gripen alcançou um novo marco em sua trajetória de desenvolvimento com o primeiro voo do Gripen F, versão biposto do caça Gripen E desenvolvida pela Saab em parceria com a indústria brasileira. A aeronave decolou em 28 de agosto do aeródromo da Saab, em Linköping, na Suécia, e permaneceu 40 minutos em voo.
A missão foi conduzida pelo piloto-chefe de testes da Saab, Jakob Högberg, e pelo Tenente-Coronel Aviador Abdon de Rezende Vasconcelos, piloto de testes da Força Aérea Brasileira (FAB). O voo inaugural teve como objetivo verificar o funcionamento dos principais sistemas da aeronave e suas características iniciais de desempenho. (Start)
O resultado inicia uma nova etapa do programa: a campanha de ensaios em voo. A partir dos primeiros testes, serão avaliados progressivamente os limites de velocidade, altitude, carga de fator e ângulo de ataque, além das capacidades táticas e das funções específicas do segundo posto da aeronave. (Start)
Um projeto que amplia a participação brasileira
Mais do que o primeiro voo de uma nova variante do Gripen, o avanço representa um resultado concreto da transferência de tecnologia estabelecida entre Brasil e Suécia.
O Gripen F é resultado da parceria estratégica entre a Saab e o Brasil e contou com participação direta da indústria brasileira em diferentes etapas do desenvolvimento, produção, ensaios e manutenção.
Segundo a Saab, mais de 350 engenheiros, técnicos e pilotos brasileiros participaram de atividades de treinamento relacionadas ao desenvolvimento e à produção da aeronave, além dos ensaios em voo e da manutenção. O Brasil também participou diretamente do codesenvolvimento da configuração biposto, na condição de cliente de lançamento. (Start)
Esse processo tem relevância particular para a Base Industrial de Defesa porque desloca a participação brasileira de uma posição exclusivamente associada à aquisição de equipamentos para uma atuação mais ampla em engenharia, integração, produção e suporte ao ciclo de vida de um sistema de combate de alta complexidade.
Da transferência de tecnologia à capacidade de desenvolver
A principal contribuição industrial do programa Gripen não está restrita ao número de aeronaves produzidas no país.
A capacitação adquirida ao longo do programa envolve conhecimentos relacionados a projeto aeronáutico, integração de sistemas, aviônica, software, ensaios, manutenção e processos industriais.
Esse conhecimento permanece incorporado às empresas e profissionais brasileiros e pode ser empregado em futuros programas de Defesa e em projetos de maior complexidade tecnológica.
É justamente esse efeito que diferencia uma política de transferência de tecnologia de uma simples operação de compra de equipamentos.
No longo prazo, a capacidade de absorver, adaptar e desenvolver tecnologias pode produzir impactos sobre toda a cadeia produtiva, incluindo empresas de menor porte que atuam como fornecedoras de componentes, sistemas e serviços especializados.
Um segundo posto com novas possibilidades operacionais
A configuração biposto foi inicialmente concebida para ampliar as possibilidades de treinamento e formação de pilotos. Entretanto, a evolução dos conceitos de combate aéreo acrescenta novas possibilidades ao emprego de aeronaves dessa categoria.
A crescente integração entre caças, sensores, sistemas não tripulados e redes de comando e controle aumenta a importância da capacidade de gerenciamento de informações durante a missão.
Nesse contexto, o segundo tripulante pode ampliar a capacidade de gerenciamento de determinadas funções, enquanto a aeronave permanece integrada à arquitetura de combate da força aérea.
O próprio desenvolvimento do Gripen ocorre em um ambiente no qual sistemas autônomos e plataformas colaborativas passam a ganhar espaço nas operações aéreas, tornando a integração entre aeronaves tripuladas, drones e sistemas de comando um dos principais desafios tecnológicos da próxima geração de capacidades militares.
Produção e continuidade industrial
O primeiro voo do Gripen F ocorre poucas semanas depois de Saab e Embraer anunciarem, em julho, um Acordo de Princípios que estabelece as bases para a produção prevista de 20 aeronaves Gripen adicionais em parceria com a indústria brasileira. As empresas informaram que pretendem concluir o acordo definitivo ainda em 2026. (Start)
A combinação entre o avanço do Gripen F e a perspectiva de novas unidades amplia a importância do programa para a sustentabilidade da cadeia industrial criada em torno do caça.
Programas aeronáuticos militares exigem continuidade. A manutenção de linhas de produção, equipes de engenharia e fornecedores especializados depende de uma perspectiva de demanda que permita às empresas planejar investimentos e preservar competências.
Para a BID, esse aspecto é tão importante quanto a própria incorporação operacional das aeronaves.
Um ativo estratégico para a indústria brasileira
O programa Gripen se tornou uma das principais referências brasileiras em transferência de tecnologia aplicada à Defesa.
A participação nacional no desenvolvimento do Gripen F demonstra que a cooperação internacional pode ser utilizada não apenas para obter uma capacidade militar, mas também para ampliar o domínio tecnológico e industrial do país.
O desafio, a partir de agora, é transformar essa experiência acumulada em novas capacidades.
O primeiro voo do Gripen F representa, portanto, mais do que o início de uma campanha de testes. É também uma demonstração da evolução da participação brasileira em um dos programas aeronáuticos militares mais complexos do país e um indicador da importância de políticas que associem aquisição de sistemas de Defesa, desenvolvimento tecnológico e fortalecimento da indústria nacional.
À medida que o Gripen avança para sua próxima etapa de ensaios e a produção brasileira ganha novas perspectivas, o programa passa a representar não apenas um componente da capacidade de combate da FAB, mas também um dos principais instrumentos de consolidação de competências estratégicas dentro da Base Industrial de Defesa brasileira.