Exército e Avibras avançam na certificação do Míssil Tático de Cruzeiro do ASTRO
Ensaio realizado no Campo de Provas da Marambaia cumpriu os objetivos previstos e representa mais uma etapa na qualificação de uma capacidade nacional de ataque de precisão a longas distâncias
O Exército Brasileiro e a Avibras Aeroco avançaram mais uma etapa no processo de certificação do Míssil Tático de Cruzeiro (MTC), desenvolvido para integrar o Sistema de Artilharia ASTROS. O ensaio de tiro foi realizado em 26 de agosto, no Centro de Avaliações do Exército (CAEx), na Restinga da Marambaia, no Rio de Janeiro, e, segundo a empresa, atingiu integralmente os objetivos estabelecidos para a fase. (Avibras Aeroco)
A atividade reuniu equipes da Avibras e do Exército responsáveis pelo lançamento e pela avaliação dos resultados. Também participaram representantes do Escritório de Projetos do Exército (EPEx), da Diretoria de Fabricação, do Instituto Militar de Engenharia (IME) e do Centro Tecnológico do Exército (CTEx), evidenciando a dimensão tecnológica do programa. (Avibras Aeroco)
O MTC integra o portfólio de munições inteligentes do ASTROS e possui alcance declarado de até 300 quilômetros. O próprio Ministério da Defesa enquadra o desenvolvimento do míssil de 300 km como parte do Programa Estratégico ASTROS, concebido para ampliar a capacidade de artilharia de mísseis e foguetes da Força Terrestre e contribuir para a capacidade dissuasória brasileira. (Serviços e Informações do Brasil)
Certificação vai além do ensaio de tiro
Em programas de sistemas de armas complexos, o lançamento bem-sucedido é uma etapa importante, mas não equivale à entrada imediata do sistema em serviço. A certificação envolve uma sequência de avaliações destinadas a verificar se o produto atende aos requisitos técnicos, operacionais e de segurança estabelecidos pelo usuário militar.
É justamente nesse processo que o papel do CAEx ganha relevância. A estrutura permite ao Exército avaliar, em condições controladas, sistemas desenvolvidos pela indústria e produzir dados que alimentam o processo de qualificação.
No caso do MTC, a participação simultânea do CAEx, CTEx, IME, EPEx e das estruturas responsáveis pelo Programa ASTROS-FOGOS mostra que o desenvolvimento não está restrito à relação entre uma empresa e seu cliente. Existe uma cadeia de conhecimento envolvendo engenharia, pesquisa, fabricação, ensaios, avaliação e gestão de projetos estratégicos. (Avibras Aeroco)
Uma capacidade estratégica para o ASTROS
A incorporação de um míssil de cruzeiro ao ASTROS representa uma evolução importante da arquitetura do sistema brasileiro de artilharia de foguetes e mísseis.
O alcance de até 300 km coloca o MTC em uma categoria distinta dos foguetes convencionais empregados pelo sistema e amplia a possibilidade de emprego de munições de precisão contra alvos em maior profundidade. O Programa Estratégico ASTROS, segundo o Ministério da Defesa, prevê justamente o desenvolvimento de mísseis táticos de cruzeiro de longo alcance e elevada precisão. (Serviços e Informações do Brasil)
Essa capacidade também exige que o míssil seja considerado como parte de uma cadeia tecnológica mais ampla. Alcance e precisão dependem de um conjunto de competências que inclui propulsão, navegação, guiamento, eletrônica, integração de sistemas, produção industrial e capacidade de ensaio.
É nesse ponto que o programa ganha relevância para a Base Industrial de Defesa.
Exército e indústria compartilham conhecimento crítico
O aspecto mais estratégico do avanço registrado na Marambaia está na integração entre o Sistema de Ciência, Tecnologia e Inovação do Exército e a indústria nacional.
A presença conjunta de engenheiros, técnicos e organizações como IME, CTEx, Diretoria de Fabricação e EPEx cria um ambiente no qual os resultados dos ensaios podem alimentar diretamente o desenvolvimento e o aperfeiçoamento do sistema. (Avibras Aeroco)
Esse modelo é particularmente importante em tecnologias de defesa de alta complexidade. Diferentemente de equipamentos adquiridos prontos no exterior, programas nacionais de mísseis permitem ao País acumular conhecimento sobre o produto e sobre os processos necessários para desenvolvê-lo, avaliá-lo, produzir seus componentes e mantê-lo ao longo de sua vida útil.
A continuidade desse ciclo é um dos principais desafios da indústria de defesa. O domínio tecnológico não é preservado apenas pela existência de um protótipo ou pela realização de um teste bem-sucedido. Ele depende de recursos, encomendas, equipes qualificadas, infraestrutura de testes e capacidade industrial para transformar desenvolvimento em produção e evolução tecnológica.
A importância para a Avibras e para a BID
O avanço do MTC também tem relevância industrial para a Avibras Aeroco, empresa que concentra competências acumuladas ao longo de décadas no desenvolvimento de sistemas de defesa, foguetes e mísseis. Em maio de 2026, a companhia foi credenciada pelo Ministério da Defesa como Empresa Estratégica de Defesa (EED). (Serviços e Informações do Brasil)
A manutenção de programas complexos como o MTC é, portanto, relevante não apenas para o Exército, mas para a preservação de uma cadeia tecnológica nacional.
Um programa de míssil de longo alcance mobiliza competências que podem ser aplicadas a outras famílias de produtos e sistemas. A continuidade desses projetos contribui para manter profissionais especializados, fornecedores, infraestrutura de engenharia e capacidade de produção dentro do País.
Para a BID, esse é um ponto central: o valor de um programa estratégico não está somente no equipamento entregue às Forças Armadas, mas também no conhecimento e na capacidade industrial que permanecem disponíveis depois de cada etapa do projeto.
O desafio agora é transformar desenvolvimento em capacidade permanente
O ensaio realizado na Marambaia demonstra que o MTC continua avançando em seu processo de certificação. O próximo desafio será transformar os resultados obtidos nos ensaios em uma capacidade operacional certificada e sustentável.
Isso exigirá continuidade de desenvolvimento, avaliações complementares, capacidade produtiva e previsibilidade para a cadeia industrial envolvida.
O avanço do MTC mostra que o Brasil mantém competência para desenvolver sistemas de armas de elevada complexidade tecnológica. A questão estratégica, daqui para frente, será garantir que essa competência não permaneça restrita ao desenvolvimento, mas se converta em capacidade industrial contínua, produção nacional e evolução tecnológica de longo prazo.
É justamente nessa transição — do desenvolvimento para a capacidade permanente — que se encontra uma das questões mais importantes para o futuro da Base Industrial de Defesa brasileira.
Categoria: Indústria de Defesa
Tags: Avibras, MTC, Míssil Tático de Cruzeiro, ASTROS, ASTROS-FOGOS, Exército Brasileiro, CAEx, IME, CTEx, EPEx, mísseis, tecnologia de defesa, BID, indústria nacional, defesa estratégica.