Exército define requisitos para novo Robô EOD e amplia demanda por tecnologia robótica nacional
Plataforma destinada à identificação e neutralização de artefatos explosivos deverá superar obstáculos, operar por pelo menos duas horas e receber diferentes sensores e ferramentas
O Exército Brasileiro avançou mais uma etapa no desenvolvimento de uma nova capacidade de emprego de sistemas robóticos em operações de alto risco. O Estado-Maior do Exército aprovou os Requisitos Operacionais do Equipamento Robótico de Identificação e Neutralização de Artefatos Explosivos, conhecido como Robô EOD, estabelecendo os parâmetros técnicos que deverão orientar sua obtenção e o gerenciamento de seu ciclo de vida.
A medida cria uma referência para as empresas interessadas no desenvolvimento ou fornecimento da plataforma e estabelece um conjunto de capacidades consideradas essenciais para o emprego do sistema pela Força Terrestre. Entre elas estão mobilidade em ambientes complexos, operação remota, consciência situacional e capacidade de manipulação de objetos a distância.
O processo de desenvolvimento da capacidade remonta a uma Necessidade Operacional Geral registrada em dezembro de 2024, quando o equipamento era tratado internamente como Robô Antibomba. A aprovação dos requisitos, portanto, representa uma etapa de consolidação das necessidades operacionais do Exército antes de uma eventual contratação ou desenvolvimento do sistema.
Plataforma preparada para terrenos complexos
Os requisitos obrigatórios estabelecem que o robô deverá ser capaz de transpor escadas, valas, rampas e obstáculos com pelo menos 20 centímetros de altura. A plataforma também deverá se deslocar em diferentes direções e manter capacidade de operação em condições adversas de terreno e clima.
Outro requisito é a possibilidade de transportar cargas e realizar tarefas de manipulação controladas remotamente por um operador. O sistema deverá ser transportável por até duas pessoas, mas sua preparação e operação deverão poder ser realizadas por apenas um militar.
A autonomia mínima estabelecida para as baterias é de duas horas. Em uma missão EOD, esse parâmetro é relevante porque permite ampliar o tempo de permanência do equipamento em áreas de risco sem expor diretamente os especialistas responsáveis pela neutralização do artefato.
Sensores e operação remota
A arquitetura do equipamento deverá estar integrada a uma Estação de Controle capaz de enviar comandos e receber, em tempo real, imagens, áudio e informações de telemetria. Entre os dados previstos estão informações provenientes de GNSS e de sistemas inerciais, além de visão de 360 graus do entorno.
A capacidade de observação deverá funcionar durante o dia e à noite, incluindo recursos de infravermelho. O conjunto transforma o robô em uma extensão remota da equipe especializada, permitindo investigar e manipular ameaças antes da aproximação física dos militares.
A doutrina EOD do Exército estabelece justamente a redução da exposição dos operadores como um dos princípios fundamentais desse tipo de atividade. A Força emprega equipes especializadas para detectar, identificar, avaliar e neutralizar ameaças explosivas, incluindo dispositivos improvisados.
Arquitetura modular amplia possibilidades de emprego
Entre os requisitos considerados obrigatórios está a existência de uma plataforma intercambiável capaz de receber e operar um canhão disruptor, ferramenta empregada na neutralização de determinados artefatos explosivos.
O projeto também prevê a possibilidade de substituição de componentes críticos pelo próprio operador durante a missão. Essa característica aponta para uma arquitetura modular, importante para reduzir o tempo de manutenção e permitir adaptações conforme o cenário operacional.
Entre os requisitos desejáveis aparecem ainda a integração com espingarda calibre 12 e a capacidade de transportar, posicionar e operar um sistema de raios X. Também são previstas possibilidades de integração com sensores voltados à Defesa Química, Biológica, Radiológica e Nuclear (DQBRN), além da operação em ambientes sujeitos a interferência eletromagnética.
O sistema poderá ainda incorporar recursos para retorno automático ao ponto previamente definido pelo operador em caso de perda de comunicação com a estação de controle, além da capacidade de transportar cargas de até 15 quilos e detectar assinaturas térmicas.
Oportunidade para a Base Industrial de Defesa
Mais do que especificar um novo equipamento para a Engenharia, os requisitos estabelecem um conjunto de demandas tecnológicas que pode estimular fornecedores brasileiros de robótica terrestre, sensores, comunicações, optrônicos, sistemas de controle e integração de plataformas.
O próprio Exército destacou recentemente o Robô EOD como um meio de ação remota de fabricação nacional durante a avaliação da BRAEODCOY, unidade brasileira de neutralização de artefatos explosivos apresentada no processo de certificação das Nações Unidas. Na ocasião, a Força associou o desenvolvimento do equipamento à capacidade tecnológica da Base Industrial de Defesa brasileira.
Esse aspecto é relevante porque a demanda por plataformas remotamente operadas vem deixando de ser restrita a demonstrações tecnológicas e passando a incorporar requisitos formais de emprego militar. Para a indústria, isso significa uma especificação mais clara do produto que o Exército pretende obter e dos níveis de desempenho que deverão ser atingidos.
A aprovação dos Requisitos Operacionais, contudo, não representa a contratação imediata do Robô EOD. O documento funciona como referência para o processo de obtenção por desenvolvimento e para as etapas posteriores de avaliação e gestão do sistema.
O avanço indica, entretanto, que a robótica terrestre está ganhando espaço na agenda de modernização do Exército Brasileiro, especialmente em missões nas quais a combinação entre mobilidade, sensores, comunicação segura e manipulação remota pode reduzir a exposição de militares e ampliar a capacidade de resposta diante de ameaças explosivas.