Exército Brasileiro inicia produção em série do Centauro II e prevê 98 blindados para a Cavalaria
Contrato assinado em Brasília marca nova etapa do Programa Estratégico Forças Blindadas e amplia a capacidade de combate sobre rodas do Exército
O Exército Brasileiro iniciou uma nova etapa de modernização de sua frota blindada com a assinatura, em 31 de agosto, do contrato para a aquisição definitiva do Centauro II, viatura blindada de combate de cavalaria 8x8 desenvolvida pelo consórcio CIO, formado pela IDV e pela Oto Melara, empresa da Leonardo.
O contrato estabelece o início da produção em série com um primeiro lote de sete viaturas. A aquisição integra um programa que prevê, progressivamente, a incorporação de 98 Centauro II à frota do Exército, incluindo as duas unidades utilizadas anteriormente na fase de avaliação.
A decisão representa um avanço importante dentro do Programa Estratégico Forças Blindadas, que busca renovar e ampliar as capacidades das tropas de Cavalaria e Infantaria. O Centauro II deverá substituir gradualmente os veículos EE-9 Cascavel em determinadas funções, incorporando maior poder de fogo, mobilidade, proteção e recursos digitais.
Um programa baseado em avaliação operacional
A escolha do Centauro II é resultado de um processo iniciado em 2021. Em 2022, o Exército recebeu dois veículos para avaliação técnica e operacional, submetidos a uma série de testes conduzidos no Brasil e na Itália.
Segundo o Exército, o processo envolveu cinco fases de avaliação e mais de 600 atributos operacionais e técnicos. A configuração final também passou por modificações destinadas a adaptar a plataforma às necessidades e às condições de emprego da Força Terrestre brasileira.
A conclusão dessa etapa permitiu avançar da fase de experimentação para a produção em série, transformando o programa em uma aquisição de longo prazo.
Poder de fogo e mobilidade
O Centauro II é uma plataforma 8x8 equipada com canhão de 120 mm, característica que o posiciona em uma categoria de elevada capacidade de fogo entre os veículos blindados sobre rodas.
O sistema de armas é integrado a um sistema digital de controle de tiro, com câmeras térmicas, telêmetro laser e estabilização, permitindo o emprego do armamento durante o movimento e em diferentes condições operacionais.
A viatura pode alcançar aproximadamente 105 km/h e possui autonomia de até 800 quilômetros, características que ampliam a capacidade de deslocamento da Cavalaria em grandes distâncias.
Mais do que velocidade, a combinação entre mobilidade, sensores, controle de tiro e armamento de maior calibre representa uma mudança significativa no conceito de emprego dos meios de Cavalaria sobre rodas.
Impacto para a Base Industrial de Defesa
O programa também possui relevância industrial. A aquisição não se limita à incorporação de uma nova plataforma pelo Exército: envolve a construção de uma relação industrial de longo prazo entre o Brasil e o consórcio responsável pelo veículo.
A IDV já possui presença consolidada no país por meio do programa Guarani, com centenas de viaturas produzidas para o Exército. A empresa também mantém uma cadeia industrial brasileira associada às suas atividades no setor de Defesa.
No caso do Centauro II, a evolução para a produção em série cria potencial para ampliar a participação nacional em atividades de montagem, manutenção, suporte logístico e fornecimento de componentes, dependendo da configuração contratual e dos mecanismos de compensação e participação industrial previstos para o programa.
Essa dimensão é estratégica para a BID porque programas de longa duração podem gerar demanda contínua para fornecedores nacionais e estimular a formação de competências em áreas como sistemas eletrônicos, integração, manutenção especializada e suporte ao ciclo de vida.
Modernização da Cavalaria
A entrada progressiva do Centauro II não significa apenas a substituição de uma plataforma por outra. O movimento faz parte de uma transformação mais ampla da Cavalaria brasileira.
O Programa Estratégico Forças Blindadas contempla diferentes famílias de veículos e sistemas, incluindo os Guarani, Centauro e Guaicurus, além da modernização de meios existentes e de outros sistemas empregados pelas tropas blindadas.
Nesse contexto, o Centauro II passa a ocupar uma posição de maior capacidade de combate dentro da estrutura sobre rodas, enquanto outros veículos permanecem desempenhando funções complementares.
A modernização também exige investimentos em treinamento, doutrina, manutenção, infraestrutura e cadeia logística. A efetividade do programa, portanto, dependerá não apenas da entrega das viaturas, mas da capacidade de sustentar a frota durante todo o seu ciclo de vida.
Um projeto de longo prazo
A assinatura do primeiro contrato de produção em série transforma o Centauro II de um projeto em avaliação em um programa efetivo de renovação da capacidade blindada brasileira.
Com a previsão de 98 unidades, o programa estabelece uma demanda relevante para o setor de Defesa e cria uma perspectiva de continuidade para fornecedores e serviços associados à plataforma.
Para a Base Industrial de Defesa, o ponto central estará na capacidade de transformar essa aquisição em capacidade industrial permanente, com participação nacional, desenvolvimento tecnológico, manutenção local e geração de conhecimento.
O Centauro II representa, assim, não apenas uma nova viatura para a Cavalaria, mas uma oportunidade de fortalecer a cadeia industrial associada aos sistemas terrestres de alta complexidade e ampliar a capacidade brasileira de sustentar, modernizar e evoluir seus próprios meios de Defesa ao longo das próximas décadas.