Envelhecer é uma Questão de Estado: Demografia, Poder e o Futuro da Capacidade Militar
O envelhecimento populacional afeta muito mais do que o recrutamento militar: pressiona orçamentos, dificulta a renovação de competências industriais e influencia a distribuição do poder entre Estados. O futuro do poder militar começa muito antes da entrada de um jovem no quartel.
por Rogerio Gomes da Costa
8 Setembro 2026
Insights para o Futuro
“O que torna a demografia uma oportunidade tão recompensadora é justamente sua negligência por parte de quem decide — empresários, gestores públicos ou formuladores de políticas. Eles ainda se apegam à suposição de que a demografia não muda, ou não muda rápido. Na verdade, rejeitam até as evidências mais claras de mudança demográfica.”
– Peter Drucker
Uma criança que entra hoje na escola poderá, em pouco mais de uma década, ingressar nas Forças Armadas ou integrar a força de trabalho que sustenta a economia e o Estado. Se as gerações seguintes forem menos numerosas, os efeitos não ficarão restritos à educação. Aparecerão, ao longo do tempo, no recrutamento militar e na oferta de profissionais para a indústria, a saúde e a tecnologia, com possíveis reflexos na arrecadação pública.
A demografia é uma força lenta. Justamente por isso, costuma ser subestimada. Seus efeitos parecem distantes até o momento em que já não podem ser revertidos com rapidez.
Segundo as projeções da ONU na revisão de 2024, mais da metade dos países e territórios apresenta fecundidade abaixo do nível de reposição, de cerca de 2,1 filhos por mulher, necessário para manter a população no longo prazo, sem migração. Em algumas das maiores economias, a população já começou a diminuir.
No Brasil, a revisão de 2024 das projeções do IBGE indica um pico de aproximadamente 220,4 milhões de habitantes em 2041. O País continuará populoso, mas terá uma proporção maior de idosos e menor de jovens. Essa mudança já está em curso e antecede a redução da população total.
Para a Defesa, uma consequência direta da redução das gerações mais jovens é a diminuição do contingente nas principais faixas etárias de recrutamento. Mas esse é apenas o começo.
A base humana do poder
As Forças Armadas disputam profissionais com todo o mercado de trabalho: concorrem por engenheiros, médicos, programadores e outros profissionais especializados. Quando a oferta de trabalhadores qualificados diminui em relação à demanda, essa concorrência tende a se intensificar. Nesse cenário, recrutar e reter profissionais pode se tornar mais difícil e custoso. Substituir os que deixam a carreira ou passam à reserva também pode exigir mais tempo.
Há também uma pressão menos visível. O envelhecimento tende a ampliar a demanda por aposentadorias, saúde e cuidados de longa duração. Ao mesmo tempo, a instabilidade estratégica aumenta a demanda por investimentos em Defesa, e as transformações econômicas, tecnológicas e climáticas exigem gastos com infraestrutura e resiliência. A pressão sobre as contas públicas dependerá também da produtividade, da participação no mercado de trabalho e das formas de financiamento dessas despesas.
O orçamento público terá de conciliar essas demandas com os encargos da dívida e os demais serviços essenciais. Uma política de Defesa que ignore esse ambiente fiscal poderá produzir planos ambiciosos sem recursos para sustentá-los. Manter capacidades militares exige mais do que financiar a aquisição de equipamentos. Os custos se estendem por todo o ciclo de vida e incluem pessoal, manutenção, treinamento, atualização e reposição.
A indústria também envelhece. Soldadores especializados, engenheiros, técnicos e operadores de máquinas não são substituídos automaticamente quando se aposentam.
Sem formação de sucessores e transmissão de conhecimento, competências acumuladas ao longo de décadas podem se perder. Uma nação pode dispor de recursos financeiros e, ainda assim, não contar com as pessoas, os fornecedores ou o conhecimento necessários para ampliar a produção de navios, aeronaves, veículos, munições e outros sistemas de Defesa.
A demografia, portanto, afeta toda a base que sustenta uma força militar, da arrecadação à produção industrial e à capacidade de mobilização. Uma população numerosa, por si só, não garante poder. A disponibilidade de pessoas qualificadas, produtivas e comprometidas é um de seus fundamentos.
A transformação demográfica também influenciará o equilíbrio internacional. Enquanto países da Europa e do Leste Asiático envelhecem e perdem população, diversos países da África e do Sul da Ásia ainda contarão com grandes contingentes de jovens nas próximas décadas. As trajetórias variam entre países, e seus efeitos sobre o poder dependerão da capacidade de transformar esse potencial humano em educação, emprego e produção.
Sociedades envelhecidas poderão compensar parte da redução de seus contingentes com produtividade, tecnologia, alianças e melhor organização.
Preparar a Defesa para a transição demográfica
A imigração poderá aliviar parte da escassez de trabalhadores, embora sua contribuição para a Defesa dependa de integração social, cidadania, qualificações e confiança institucional. Ao mesmo tempo, países que perdem seus profissionais mais preparados para mercados estrangeiros poderão experimentar uma erosão silenciosa de suas capacidades nacionais. A disputa por talentos será também uma forma de competição estratégica.
Outras respostas precisarão ser combinadas. Ampliar a participação de mulheres, prolongar determinadas carreiras, utilizar reservistas, aproximar especialistas civis das estruturas militares e adaptar funções às diferentes etapas da vida profissional poderá aumentar a base humana disponível. Nenhuma dessas medidas, isoladamente, resolverá o problema.
Tecnologia também será parte da resposta. Automação, inteligência artificial e sistemas não tripulados podem elevar a produtividade e permitir que efetivos menores operem capacidades mais numerosas. Mas, como ocorre em qualquer transformação, a tecnologia desloca a demanda de trabalho em vez de simplesmente eliminá-la. Menos operadores em uma função podem significar maior necessidade de especialistas em inteligência artificial, cibersegurança, sistemas autônomos e tecnologias quânticas, além de técnicos de manutenção avançada.
Para o Brasil, o tempo de preparação é agora. O País ainda dispõe de população numerosa e força de trabalho extensa, mas precisa formar as competências que sustentarão suas capacidades quando a estrutura etária for diferente. Isso envolve rever carreiras, investir em educação científica e tecnológica, reter e transmitir conhecimento industrial, atualizar a mobilização e planejar sistemas de Defesa compatíveis com um mercado de trabalho mais competitivo.
Também será necessário decidir quais capacidades devem permanecer no Estado, quais podem ser compartilhadas com empresas e universidades e quais dependências externas representam riscos à soberania. Em um país que envelhece, o subaproveitamento de profissionais qualificados e a duplicação de estruturas tornam-se luxos estratégicos.
O envelhecimento populacional não anuncia necessariamente o declínio, mas o fim de modelos baseados na abundância de jovens, na expansão contínua da força de trabalho e na expectativa de que sempre haverá pessoas disponíveis para preencher as mesmas organizações.
A questão estratégica não é apenas quantos habitantes um país terá, mas quantos conseguirá educar, qualificar, mobilizar e manter comprometidos com um projeto coletivo. As forças do futuro dependerão das tecnologias que construirmos, mas dependerão, antes de tudo, das pessoas que ainda teremos e do que decidirmos fazer hoje para prepará-las.
Rogerio Gomes da Costa
Chief Executive Officer | Prospectare