Embraer escolhe Mahindra para disputar programa de até 90 aeronaves na Índia
Parceria coloca o C-390 Millennium na concorrência da Força Aérea Indiana e prevê produção local, cadeia de fornecedores e futura estrutura de manutenção
A Embraer escolheu o Grupo Mahindra como parceiro industrial na Índia para disputar o programa de renovação da frota de transporte médio da Força Aérea Indiana (IAF), colocando o KC-390 Millennium no centro de uma concorrência que pode envolver a aquisição de até 90 aeronaves. A escolha amplia a presença da indústria brasileira em um dos mercados de defesa mais relevantes do mundo e associa o C-390 a um dos principais grupos industriais privados da Índia.
A seleção da Mahindra ocorreu após um processo de avaliação do setor aeroespacial indiano e de potenciais parceiros locais. A Embraer já havia levado o C-390 ao país em 2023 para uma demonstração operacional e, desde então, vinha avaliando as condições para estruturar uma participação industrial compatível com as exigências de Nova Délhi.
O programa busca substituir parte da frota de Antonov An-32 da IAF, que constitui a espinha dorsal do transporte tático indiano há décadas. A nova aeronave deverá atender missões de transporte de tropas e carga, apoio logístico, ajuda humanitária e operações em diferentes condições de infraestrutura, incluindo aeródromos com limitações de comprimento ou pavimentação.
A concorrência envolve cinco grupos industriais indianos que receberam solicitações do Ministério da Defesa: Mahindra, Tata, Hindustan Aeronautics Limited, Reliance Defence e Adani. A Tata participa do processo associada à Lockheed Martin e oferece o C-130J Super Hercules, estabelecendo uma disputa direta entre duas aeronaves já consolidadas no mercado internacional de transporte militar.
Nesse cenário, a escolha da Mahindra dá à Embraer uma plataforma industrial para apresentar o C-390 não apenas como uma aeronave, mas como um programa de longo prazo. A tendência é que a avaliação indiana considere capacidade operacional, custos, disponibilidade, suporte logístico, manutenção, produção local e transferência de tecnologia, além das condições para incorporar fornecedores indianos à cadeia produtiva.
A Embraer posiciona o C-390 como uma aeronave de maior capacidade e desempenho em relação ao C-130J. O modelo pode transportar cargas mais pesadas, operar em velocidades superiores e cumprir missões de transporte, reabastecimento aéreo, lançamento de tropas e cargas, evacuação aeromédica e outras tarefas. Os indicadores de disponibilidade e desempenho apresentados pela empresa fazem parte de sua argumentação comercial e ainda serão submetidos à avaliação dentro do processo indiano.
Outro elemento importante da proposta é a criação de uma estrutura de manutenção, reparo e revisão (MRO) na Índia. A intenção da Embraer é transformar o país em um polo regional de suporte ao C-390, atendendo tanto à futura frota indiana quanto a operadores de outros países da região. Caso avance, esse modelo poderia ampliar a participação de empresas indianas na cadeia de fornecimento e criar capacidade local para sustentação da aeronave durante todo o seu ciclo de vida.
A parceria com a Mahindra também precisa ser diferenciada da cooperação estabelecida pela Embraer com o Grupo Adani. Enquanto a Mahindra foi escolhida como parceira no segmento de defesa relacionado à disputa pelo programa de transporte militar, Embraer e Adani mantêm uma iniciativa voltada à aviação civil e ao desenvolvimento de um ecossistema de transporte aéreo regional na Índia.
Para a Embraer, o programa indiano representa uma oportunidade que ultrapassa a eventual venda de aeronaves. A entrada em uma frota de grande escala permitiria ampliar a base de operadores do C-390, consolidar uma cadeia de suporte no Indo-Pacífico e utilizar a própria Índia como plataforma industrial e logística para futuros clientes. Para a Mahindra, a associação com o projeto abre espaço para ampliar sua participação em um segmento de alta complexidade tecnológica da indústria aeroespacial.
A disputa também ocorre em um momento em que a Índia procura ampliar a participação da indústria doméstica nos grandes programas militares. Por isso, o componente industrial terá peso semelhante ao desempenho da aeronave: produzir localmente, formar fornecedores, garantir manutenção e desenvolver capacidade tecnológica são elementos que podem definir a viabilidade de longo prazo de cada proposta.
O C-390 chega à concorrência indiana com uma carteira internacional em expansão e experiência operacional acumulada por diferentes forças aéreas. A eventual escolha pela IAF, entretanto, representaria um salto de escala para o programa brasileiro e criaria uma referência industrial particularmente relevante para sua expansão em outros mercados da Ásia.
A decisão final dependerá da avaliação indiana sobre desempenho, custos, produção local, transferência tecnológica, cronograma de entrega e capacidade de sustentação. Para a Embraer, a escolha da Mahindra marca o início de uma disputa na qual o principal objetivo não é apenas vender o C-390 à Índia, mas estabelecer uma base industrial capaz de transformar o país em um dos principais polos de operação e suporte da aeronave no mundo.