Indústria de Defesa

Depois da reforma tributária, o desafio de Manaus será transformar vantagem fiscal em capacidade tecnológica

Depois da reforma tributária, o desafio de Manaus será transformar vantagem fiscal em capacidade tecnológica

Preservação do tratamento diferenciado da Zona Franca abre uma janela para modernizar o Polo Industrial de Manaus, ampliar produtividade, formar mão de obra e atrair setores estratégicos para a economia brasileira

A Reforma Tributária não encerra a história da Zona Franca de Manaus. Ao contrário: inaugura uma nova etapa para um dos principais polos industriais da região Norte.

A Emenda Constitucional nº 132/2023 preservou o diferencial competitivo da Zona Franca e determinou que a legislação dos novos tributos estabelecesse mecanismos para sua manutenção. A regulamentação posterior criou tratamentos específicos para IBS, CBS e IPI, mantendo instrumentos destinados à competitividade do modelo. (Planalto)

A questão que começa a ganhar importância, portanto, é outra: como utilizar esse período de transição para aumentar a produtividade, a densidade tecnológica e a capacidade de inovação do Polo Industrial de Manaus?

A transição até 2033
O novo sistema tributário será implantado gradualmente.

Em 2026 ocorre a fase de teste do IBS e da CBS. Em 2027 começa a cobrança da CBS e são extintos PIS e Cofins. Entre 2029 e 2032 ocorre a substituição progressiva do ICMS e do ISS pelo IBS. Em 2033, o novo modelo passa a vigorar integralmente. (Serviços e Informações do Brasil)

Para a indústria instalada em Manaus, isso significa que a próxima década será marcada simultaneamente por continuidade e transformação.

A continuidade está na preservação do tratamento diferenciado da ZFM. A transformação está na necessidade de operar dentro de uma estrutura tributária nacional diferente, com novas regras de créditos, obrigações e formação de custos.

É justamente nesse intervalo que a política industrial ganha relevância.

Preservar o incentivo não basta
A proteção tributária é um instrumento de política industrial. Ela não substitui, porém, fatores como produtividade, infraestrutura, qualificação profissional, inovação e capacidade de integração às cadeias globais.

Esse debate já aparece nos próprios estudos sobre a reforma. Uma análise publicada pela Receita Federal discute tanto os mecanismos criados para preservar a competitividade da ZFM quanto questões relacionadas à eficiência econômica e à produtividade dos incentivos. (Serviços e Informações do Brasil)

Para Manaus, o desafio é transformar o diferencial tributário em uma plataforma de desenvolvimento industrial capaz de gerar competências que permaneçam mesmo diante de mudanças no ambiente econômico.

Isso significa avançar de uma lógica baseada predominantemente na localização incentivada para outra que combine vantagem fiscal, produtividade e tecnologia.

Tecnologia como próximo estágio
O movimento já começou em algumas áreas.

A Suframa vem atualizando mecanismos relacionados à Indústria 4.0 e ao ecossistema de Pesquisa, Desenvolvimento e Inovação. Em agosto de 2026, o Capda discutiu novos procedimentos para investimentos destinados à elevação da maturidade tecnológica das fábricas instaladas na região. (Serviços e Informações do Brasil)

A autarquia também anunciou medidas de modernização tecnológica e transformação digital para acompanhar as mudanças provocadas pela reforma e pelas novas exigências do setor produtivo. (Serviços e Informações do Brasil)

Esse movimento é relevante porque coloca uma questão maior sobre o futuro do Polo Industrial de Manaus: quanto maior for o conteúdo tecnológico produzido localmente, maior será a capacidade da região de gerar valor além do próprio incentivo fiscal.

Oportunidade para a Base Industrial de Defesa
É nesse ponto que a discussão interessa diretamente à Revista BID.

Manaus possui características que podem ser conectadas a uma política industrial de Defesa mais ampla.

Eletrônica, sistemas embarcados, sensores, telecomunicações, energia, armazenamento, automação, software, inteligência artificial e tecnologias para ambientes extremos são áreas com aplicações simultaneamente civis e militares.

Uma estratégia de aproximação entre empresas do Polo Industrial de Manaus, universidades, centros de pesquisa, Forças Armadas e empresas da BID poderia transformar parte dessa capacidade em produtos e tecnologias de uso dual.

Não se trata de converter o Polo Industrial em um complexo exclusivamente militar. O caminho mais consistente seria utilizar a escala e a diversidade da economia local para desenvolver competências tecnológicas que também possam atender às necessidades de Defesa.

Nesse modelo, a Amazônia deixa de ser apenas o território que justifica a política de desenvolvimento regional e passa a ser também um laboratório para tecnologias adaptadas a ambientes de alta complexidade logística e operacional.

Infraestrutura será tão importante quanto incentivo
A competitividade industrial de Manaus também dependerá de fatores que vão além da legislação tributária.

Logística, energia, conectividade, infraestrutura urbana, acesso a mercados, disponibilidade de fornecedores e formação de profissionais especializados são elementos que determinam o custo e a capacidade de expansão das empresas.

A própria Prefeitura de Manaus vem estudando áreas para expansão do Distrito Industrial considerando os efeitos da reforma tributária e a possibilidade de novos investimentos. (Prefeitura de Manaus)

Isso mostra que a discussão sobre a próxima fase da ZFM já ultrapassa o campo tributário.

É uma discussão sobre ambiente industrial.

Mão de obra e inovação
Outro ponto decisivo será a formação de capital humano.

A demanda por profissionais capazes de trabalhar com automação, eletrônica, software, inteligência artificial, sistemas de energia, manufatura avançada e engenharia tende a crescer à medida que as fábricas elevarem seu grau de digitalização.

Em agosto, Suframa e Universidade Federal do Amazonas reforçaram uma parceria voltada à capacitação profissional para atender às demandas crescentes do Polo Industrial de Manaus. (Serviços e Informações do Brasil)

Para a BID, essa conexão entre indústria e formação tecnológica é particularmente relevante.

Programas complexos de Defesa dependem de competências acumuladas durante décadas. Criar esse capital humano em regiões estratégicas pode reduzir concentrações excessivas de conhecimento e ampliar a capacidade nacional de desenvolver soluções em diferentes partes do território.

Da proteção à competitividade
A Zona Franca chega à transição tributária com uma posição institucional preservada, mas diante de uma economia que continuará mudando.

O debate, portanto, não deveria se limitar a quanto do incentivo será mantido.

A questão industrial é mais ampla: o que será construído enquanto o incentivo estiver garantido?

Se a próxima década for utilizada para ampliar produtividade, infraestrutura, qualificação, PD&I, fornecedores locais, exportações e tecnologias de uso dual, a ZFM poderá sair da transição com uma base industrial mais sofisticada.

Nesse cenário, a política tributária deixa de ser apenas um mecanismo de compensação regional e passa a funcionar como uma ponte para uma economia industrial mais tecnológica.

Para a Base Industrial de Defesa, essa transformação abriria uma possibilidade adicional: integrar a Amazônia não apenas como área prioritária de presença e vigilância, mas também como território de desenvolvimento tecnológico e industrial estratégico.

A reforma tributária, nesse sentido, não coloca apenas uma pergunta sobre o futuro dos incentivos.

Coloca uma pergunta sobre o que Manaus fará com o tempo que esses incentivos ainda oferecem.

O desafio da próxima década será transformar vantagem tributária em produtividade, produtividade em tecnologia e tecnologia em capacidade industrial brasileira.

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