Tecnologia e Inovação

Da experiência do ITA ao próximo salto da Defesa: integração de P&D pode ampliar capacidade tecnológica brasileira

Da experiência do ITA ao próximo salto da Defesa: integração de P&D pode ampliar capacidade tecnológica brasileira

Experiência que levou à criação da Embraer mostra a importância de conectar formação, pesquisa, demanda estatal e indústria; proposta atual defende maior coordenação entre os centros de ciência e tecnologia das três Forças

A trajetória que levou à criação da Embraer demonstra como a combinação entre formação de recursos humanos, pesquisa aplicada, planejamento estatal e demanda industrial pode transformar conhecimento científico em capacidade tecnológica e produtiva.

Décadas depois, o Brasil dispõe de uma estrutura de ciência, tecnologia e inovação em Defesa muito mais ampla, distribuída entre instituições do Exército, da Marinha e da Força Aérea. O desafio passa a ser outro: como integrar esse patrimônio para desenvolver tecnologias estratégicas que ultrapassam os limites de uma única Força?

É a partir dessa questão que surge a proposta de criação de um Centro Integrado de Pesquisa e Desenvolvimento de Defesa, subordinado ao Ministério da Defesa, com a função de coordenar projetos tecnológicos estratégicos de interesse comum.

A experiência que começou com o ITA
A construção da capacidade aeroespacial brasileira começou antes mesmo da criação formal do ITA.

O chamado Plano Smith, estruturado em 1945 com participação do professor Richard H. Smith, do MIT, previa a criação de um centro voltado à formação superior e à pesquisa aplicada para atender às necessidades da indústria aeronáutica e da aviação.

Em 1950, o ITA foi formalmente criado. Quatro anos depois, surgiu o Instituto de Pesquisa e Desenvolvimento (IPD), reunindo áreas como aeronaves, eletrônica, materiais e motores.

A sequência institucional resultou no desenvolvimento do IPD-6504, aeronave que realizou seu primeiro voo em 1968 e posteriormente daria origem ao Bandeirante. Em 1969, foi criada a Embraer, responsável por aperfeiçoar, certificar e produzir a aeronave em escala industrial.

O aspecto mais relevante dessa trajetória não está apenas no surgimento de uma empresa, mas na arquitetura que conectou formação, pesquisa, desenvolvimento, ensaios, demanda estatal e industrialização.

Um patrimônio tecnológico distribuído
O Brasil possui atualmente estruturas de ciência, tecnologia, engenharia, ensaios e inovação vinculadas às três Forças.

No Exército, estão instituições como o IME, CTEx e AGITEC. Na Marinha, destacam-se o IPqM, CASNAV e CTMSP. Na Força Aérea, o país conta com o ITA, IAE, IEAv e IFI, entre outras organizações.

O material que sustenta a proposta de integração parte de uma constatação: essas instituições não deveriam ser vistas como estruturas concorrentes, mas como componentes de uma capacidade tecnológica nacional mais ampla.

A questão passa, portanto, pela governança dos projetos que exigem competências presentes em diferentes instituições.

Uma proposta de integração, não de substituição
A ideia apresentada é criar um Centro Integrado de Pesquisa e Desenvolvimento de Defesa que funcione como uma instância de coordenação, sem substituir os centros tecnológicos existentes.

A proposta preservaria instituições como IME, CTEx, IPqM, CTMSP, ITA, IAE, IEAv e IFI, mantendo suas especializações e estruturas.

A mudança estaria na coordenação de projetos considerados estratégicos e transversais, permitindo ao Ministério da Defesa estabelecer requisitos comuns, distribuir responsabilidades, compartilhar infraestrutura e acompanhar recursos, cronogramas e resultados.

Na prática, seria uma tentativa de aproximar, desde as primeiras etapas de desenvolvimento, centros de pesquisa, usuários militares, universidades e empresas da Base Industrial de Defesa.

Tecnologias que atravessam os domínios militares
A necessidade de integração ganha relevância diante da natureza cada vez mais transversal das tecnologias de Defesa.

O material destaca áreas como sensores de alta precisão, visão computacional, inteligência artificial, sistemas autônomos, tecnologias espaciais, materiais compostos, manufatura aditiva, criptografia pós-quântica, defesa cibernética, guiamento e navegação e monitoramento acústico submarino.

São tecnologias que podem encontrar aplicações em diferentes ambientes operacionais.

Um mesmo desenvolvimento em sensores, por exemplo, pode ter aplicações na vigilância terrestre, defesa antiaérea, monitoramento marítimo ou sistemas aeroespaciais. O mesmo princípio pode ser aplicado a inteligência artificial, guerra eletrônica, comunicações seguras, processamento de dados e sistemas autônomos.

Isso cria espaço para identificar previamente competências que podem ser compartilhadas, evitando que projetos semelhantes sejam desenvolvidos de maneira isolada.

O impacto sobre a Base Industrial de Defesa
Uma governança tecnológica mais integrada também pode alterar a relação entre pesquisa pública e indústria.

A transformação de conhecimento científico em produtos de Defesa exige mais do que pesquisa. Envolve desenvolvimento, testes, certificação, propriedade intelectual, produção, financiamento, manutenção e capacidade de sustentação.

Nesse processo, a participação antecipada da indústria pode aproximar os projetos tecnológicos das condições reais de produção e de mercado.

A experiência que levou ao Bandeirante demonstra justamente a importância dessa conexão. O Estado não apenas adquiriu um produto pronto: participou da formação de recursos humanos, sustentou pesquisa, financiou desenvolvimento e criou condições para a industrialização.

Para a BID contemporânea, a questão é adaptar essa lógica a um ambiente tecnológico muito mais complexo.

Soberania tecnológica não significa produzir tudo
Outro ponto relevante é a própria definição de autonomia tecnológica.

Em uma cadeia industrial moderna, um sistema de Defesa pode depender de centenas ou milhares de componentes, softwares, sensores, materiais e sistemas de comunicação.

Por isso, soberania tecnológica não significa necessariamente produzir todos os componentes nacionalmente. Significa dominar conhecimentos e capacidades considerados críticos para desenvolver, integrar, manter, atualizar e, quando necessário, substituir sistemas estratégicos.

Essa abordagem coloca a capacidade de sustentação tecnológica no mesmo nível de importância do desenvolvimento inicial do produto.

Da tecnologia crítica a uma carteira nacional de projetos
O material também propõe que as prioridades tecnológicas já estabelecidas pelo Ministério da Defesa sejam convertidas em uma carteira nacional de projetos de desenvolvimento.

Nesse modelo, os projetos poderiam ser organizados por marcos tecnológicos, responsabilidades institucionais, recursos e resultados esperados.

A estrutura poderia incluir compartilhamento de laboratórios e instalações de ensaio, mecanismos de transferência de tecnologia, participação antecipada da BID, integração com universidades e indicadores de maturidade tecnológica, propriedade intelectual, capacidade industrial e incorporação operacional.

A lógica seria concentrar esforços nas tecnologias críticas sem eliminar a especialização operacional de cada Força.

O desafio é transformar instituições em sistema
Programas estratégicos brasileiros demonstram que projetos de Defesa podem produzir efeitos muito além da aquisição de equipamentos.

O desenvolvimento de submarinos e o Programa Nuclear da Marinha, por exemplo, envolvem formação de recursos humanos, infraestrutura, domínio tecnológico, indústria e continuidade institucional.

A mesma lógica pode ser aplicada às novas fronteiras tecnológicas.

Inteligência artificial, sistemas autônomos, sensores, tecnologias espaciais, ciberdefesa, materiais avançados e comunicações seguras tendem a atravessar diferentes domínios militares. Desenvolver essas capacidades de maneira integrada pode ampliar o retorno dos investimentos públicos e criar oportunidades para diferentes segmentos da BID.

Uma nova etapa para a capacidade tecnológica brasileira
O Brasil já possui universidades, institutos militares, laboratórios, pesquisadores, infraestrutura de testes, empresas especializadas e uma Base Industrial de Defesa capaz de participar de projetos tecnológicos complexos.

A questão central passa a ser como conectar essas competências de forma permanente.

A proposta de um Centro Integrado de Pesquisa e Desenvolvimento de Defesa representa uma possibilidade dentro desse debate. Sua função seria atuar na governança de projetos tecnológicos transversais, preservando a autonomia e a especialização das estruturas existentes.

Mais do que criar uma nova instituição, a discussão aponta para a necessidade de aperfeiçoar a coordenação do patrimônio científico, tecnológico e industrial que o Brasil acumulou ao longo de décadas.

A experiência do ITA, do CTA e do IPD mostrou que formação, ciência, Estado e indústria podem construir capacidades que permanecem no país por gerações.

O próximo desafio é fazer com que esse conhecimento acumulado opere cada vez mais como um sistema — conectando as três Forças, universidades, centros de pesquisa e empresas da Base Industrial de Defesa para transformar tecnologias críticas em capacidades nacionais de longo prazo.

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