Geopolítica

Brasil e Argentina reforçam cooperação naval no Atlântico Sul em meio a mudanças no cenário regional

Brasil e Argentina reforçam cooperação naval no Atlântico Sul em meio a mudanças no cenário regional

Exercício Fraterno XXXIX reuniu dez unidades navais e ampliou a interoperabilidade entre as duas Marinhas; cooperação bilateral mantém peso estratégico para a segurança do Atlântico Sul

Brasil e Argentina concluíram nesta segunda-feira (24) a fase operacional do Exercício Fraterno XXXIX, uma das mais tradicionais atividades militares conjuntas da América do Sul. Realizado entre 13 e 24 de agosto em águas argentinas, o exercício reuniu unidades navais e aeronavais dos dois países e teve como objetivo ampliar a interoperabilidade, padronizar procedimentos e aperfeiçoar a capacidade de atuação combinada no Atlântico Sul.

A edição deste ano envolveu dez unidades navais, meios aeronavais e Forças Especiais. Do lado brasileiro, participaram as fragatas Tamandaré e União, o submarino Humaitá e o navio de socorro submarino Guillobel. A Marinha Argentina empregou o destróier La Argentina, as corvetas Espora e Robinson e o patrulheiro oceânico Storni, entre outros meios.

Mais do que um exercício de adestramento, a atividade evidencia a permanência de mecanismos de cooperação militar entre duas das principais forças navais da região. O Fraterno é realizado anualmente desde 1978 e tem como uma de suas funções manter procedimentos operacionais compatíveis entre as duas Marinhas.

Atlântico Sul ganha peso estratégico
A realização do exercício ocorre em um momento de transformação do ambiente estratégico internacional, no qual o Atlântico Sul voltou a receber maior atenção por sua importância para as rotas comerciais, recursos naturais, infraestrutura marítima e conexão entre América do Sul, África e Antártica.

Para Brasil e Argentina, a manutenção de capacidade de operação conjunta representa um instrumento de estabilidade regional. O exercício deste ano incluiu atividades relacionadas à guerra antissubmarina, defesa aérea e operações de superfície, além da simulação de situações de conflito sob mandato das Nações Unidas.

A presença do submarino brasileiro Humaitá, um dos meios convencionais mais modernos da América do Sul, acrescentou uma dimensão particularmente relevante ao treinamento. A participação de unidades submarinas permite aperfeiçoar procedimentos de detecção, acompanhamento e resposta em cenários de guerra antissubmarina, uma capacidade considerada estratégica para forças navais que operam em áreas marítimas de grande extensão.

Cooperação militar como instrumento de política regional
O aspecto geopolítico do Fraterno está justamente na continuidade. Mesmo diante das mudanças políticas e econômicas que ocorrem nos dois países ao longo dos anos, a cooperação militar bilateral mantém canais institucionais permanentes.

O próprio decreto argentino que autorizou o exercício destaca que o Fraterno contribui para o adestramento combinado, a interoperabilidade e a padronização dos processos de planejamento e condução das operações. O documento também relaciona a atividade à segurança internacional e à estabilidade regional.

Essa continuidade é relevante para o equilíbrio estratégico sul-americano. Em vez de depender exclusivamente de acordos políticos de curto prazo, Brasil e Argentina mantêm uma estrutura de cooperação construída ao longo de quase cinco décadas.

Para o Brasil, a relação também possui importância particular pela posição geográfica e pela extensão de sua área marítima de interesse estratégico. A cooperação com a Argentina permite ampliar a experiência operacional em um ambiente no qual os dois países compartilham interesses relacionados à segurança marítima e à estabilidade do Atlântico Sul.

Impactos para a indústria de defesa
Embora o Fraterno não seja um programa de aquisição de equipamentos, exercícios desse tipo possuem impacto indireto sobre a Base Industrial de Defesa.

A interoperabilidade exige que diferentes plataformas, sistemas de comunicação, sensores e equipamentos funcionem de maneira coordenada. Quanto maior o nível de integração operacional, maior a demanda por sistemas compatíveis, comunicações seguras, sensores, softwares de comando e controle e soluções de guerra eletrônica.

Esse processo pode criar oportunidades para empresas brasileiras capazes de fornecer tecnologias interoperáveis não apenas para as Forças Armadas nacionais, mas também para parceiros regionais.

A presença da nova fragata Tamandaré no exercício é um exemplo desse processo. O navio faz parte de um programa de renovação da capacidade de superfície da Marinha do Brasil e incorpora sistemas e tecnologias desenvolvidos em uma cadeia industrial que envolve empresas nacionais e estrangeiras.

A utilização de meios mais modernos em exercícios internacionais também permite testar procedimentos, identificar necessidades de atualização e avaliar a integração entre equipamentos de diferentes origens.

Uma agenda que ultrapassa o exercício
O encerramento do Fraterno XXXIX não significa o fim da cooperação naval entre os dois países. Na reunião final do exercício, realizada em 24 de agosto, os comandantes dos grupos de tarefas brasileiro e argentino assinaram documentos relativos à próxima edição da atividade.

Esse mecanismo de continuidade é um dos elementos mais relevantes do exercício.

Em um cenário internacional marcado por maior competição estratégica, reconfiguração das cadeias de fornecimento de defesa e aumento da importância das capacidades navais, a manutenção de canais de cooperação entre os países sul-americanos ganha relevância adicional.

Para a Base Industrial de Defesa, o cenário também aponta para uma questão de longo prazo: quanto maior a integração operacional entre as Forças Armadas da região, maior pode ser o espaço para padronização de equipamentos, serviços de manutenção, treinamento, sistemas de comunicação e soluções tecnológicas produzidas na América do Sul.

O Fraterno XXXIX mostra, portanto, que a cooperação militar Brasil-Argentina permanece como um dos instrumentos de integração estratégica do Atlântico Sul. A evolução dessa relação poderá ter efeitos não apenas sobre a capacidade militar dos dois países, mas também sobre o mercado regional de produtos e serviços de defesa.

 

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