Brasil e África do Sul ampliam cooperação estratégica em Defesa e abrem espaço para novas parcerias industriais
Com novo Diálogo da Indústria de Defesa, agenda de segurança marítima e fortalecimento da ZOPACAS, aproximação entre os dois países pode ampliar oportunidades para empresas brasileiras no mercado africano
Brasil e África do Sul deram um novo passo na ampliação da cooperação bilateral em Defesa durante a VIII Sessão da Comissão Mista Brasil–África do Sul, realizada em 26 de agosto, em Pretória. O encontro estabeleceu novos pontos de convergência para os dois países, com destaque para a indústria de Defesa, segurança marítima, cooperação militar e fortalecimento da presença brasileira e sul-africana no Atlântico Sul. (Serviços e Informações do Brasil)
Entre os encaminhamentos está a realização de um novo Diálogo da Indústria de Defesa, mecanismo destinado a aproximar empresas dos dois países e identificar oportunidades futuras de cooperação. Também foi prevista para março de 2027, no Brasil, a 5ª Reunião do Comitê Conjunto de Defesa.
O movimento é relevante para a Base Industrial de Defesa (BID) porque desloca parte da relação bilateral do campo exclusivamente diplomático e militar para uma agenda de cooperação empresarial, tecnológica e produtiva.
Indústria de Defesa entra no centro da agenda
A criação de novos canais de diálogo entre empresas brasileiras e sul-africanas ocorre em um momento em que ambos os países buscam ampliar sua inserção internacional em setores de alta complexidade tecnológica.
A própria agenda da Comissão Mista incluiu, além de Defesa, os setores aeroespacial, ciência e inovação, minerais críticos, energia e tecnologia. Para a indústria brasileira, essa convergência abre possibilidades que vão além da venda direta de produtos de Defesa, envolvendo desenvolvimento tecnológico, integração de cadeias produtivas, serviços especializados, manutenção, treinamento e possíveis projetos conjuntos. (DIRCO)
A África do Sul também possui uma posição estratégica para empresas brasileiras interessadas no continente africano. Segundo o governo sul-africano, o país funciona como uma porta de entrada para um mercado africano de mais de 1,4 bilhão de pessoas, enquanto o Brasil representa para empresas sul-africanas uma plataforma de acesso à América Latina e ao Caribe. Em 2025, o comércio bilateral alcançou aproximadamente US$ 2 bilhões. (DIRCO)
Esse aspecto ganha importância quando analisado sob a perspectiva da BID. A internacionalização de uma empresa de Defesa não depende apenas da capacidade de desenvolver um equipamento competitivo, mas também da construção de redes locais de suporte, certificação, manutenção, logística, financiamento e relacionamento institucional.
Nesse sentido, um diálogo estruturado entre as indústrias dos dois países pode funcionar como mecanismo para identificar projetos nos quais competências brasileiras e sul-africanas sejam complementares.
Atlântico Sul ganha peso estratégico
A cooperação também avança sobre um dos principais espaços geopolíticos de interesse dos dois países: o Atlântico Sul.
Brasil e África do Sul reafirmaram a intenção de fortalecer a Zona de Paz e Cooperação do Atlântico Sul (ZOPACAS) e aprofundar a cooperação em segurança marítima. O movimento ocorre poucos meses depois da IX Reunião Ministerial da ZOPACAS, realizada no Brasil em abril de 2026, quando o país assumiu a Presidência Pro Tempore da iniciativa e foi aprovada a Estratégia de Cooperação do Rio de Janeiro. (Serviços e Informações do Brasil)
Criada em 1986 por iniciativa brasileira, a ZOPACAS reúne 24 países da América do Sul e da costa ocidental africana e tem entre seus objetivos a promoção da cooperação regional e da paz e segurança no Atlântico Sul. (Serviços e Informações do Brasil)
Para o setor de Defesa, o fortalecimento desse mecanismo amplia a importância de capacidades relacionadas à consciência situacional marítima, vigilância, comunicações, interoperabilidade, proteção de infraestruturas críticas e segurança das rotas marítimas.
É uma agenda particularmente relevante para Brasil e África do Sul porque os dois países possuem extensos espaços marítimos, interesses econômicos associados ao oceano e responsabilidades crescentes na segurança de suas respectivas áreas de interesse estratégico.
ATLASUR reforça a interoperabilidade
Outro ponto de destaque é a formalização do exercício multinacional ATLASUR, voltado à cooperação entre forças navais.
O próximo exercício está previsto para setembro ou outubro de 2028, em Simon’s Town, na África do Sul. A formalização do acordo que permitirá sua realização está em andamento.
Além do treinamento militar, exercícios desse tipo possuem impacto direto sobre a capacidade de interoperabilidade entre as Forças Armadas. Eles permitem testar procedimentos, comunicações, planejamento operacional e emprego combinado de diferentes meios.
Para a indústria, exercícios multinacionais também representam uma oportunidade indireta de avaliação de tecnologias e sistemas em ambientes operacionais distintos. A interoperabilidade passa, cada vez mais, a ser um requisito para equipamentos destinados a mercados internacionais.
Uma relação que já possui histórico tecnológico
A aproximação Brasil–África do Sul no setor de Defesa não é inédita. Os dois países já desenvolveram projetos conjuntos de elevada complexidade tecnológica, entre eles o programa do míssil ar-ar A-Darter, desenvolvido em parceria para aplicação na aviação militar.
O histórico demonstra que a cooperação Sul-Sul pode alcançar níveis superiores aos de uma relação tradicional entre comprador e fornecedor, chegando ao desenvolvimento compartilhado de tecnologias, à industrialização e à formação de competências. O próprio Ministério da Defesa registra o A-Darter como exemplo de cooperação entre Brasil e África do Sul na área de Defesa. (Serviços e Informações do Brasil)
Essa experiência cria uma referência importante para avaliar os próximos passos. A nova agenda não precisa necessariamente reproduzir modelos anteriores, mas pode utilizar a experiência acumulada para identificar áreas em que os dois ecossistemas industriais tenham capacidade de trabalhar conjuntamente.
Do relacionamento bilateral à escala internacional
Há ainda uma dimensão econômica que merece atenção.
A África do Sul ocupa uma posição relevante no sistema econômico africano e participa da Área de Livre Comércio Continental Africana (AfCFTA). Para empresas brasileiras, a construção de parcerias locais pode facilitar não apenas a entrada no mercado sul-africano, mas também o desenvolvimento de estratégias de internacionalização para outros países do continente.
No caso da BID, isso é especialmente significativo porque produtos de Defesa normalmente exigem relações de longo prazo. A venda de uma aeronave, sistema eletrônico, veículo, sensor ou equipamento militar pode resultar em contratos posteriores de treinamento, manutenção, modernização, peças, suporte logístico e atualização tecnológica.
Por isso, a presença internacional de uma empresa de Defesa tende a ser mais sustentável quando apoiada por uma estrutura industrial e comercial permanente no mercado de destino.
A agenda Brasil–África do Sul pode contribuir justamente para essa construção.
Próximos passos serão decisivos para a BID
O principal indicador de sucesso da nova fase de cooperação será a capacidade de transformar os entendimentos políticos em projetos concretos entre empresas, centros tecnológicos e instituições de Defesa.
O próximo Diálogo da Indústria de Defesa será, portanto, um momento particularmente importante. A identificação de setores prioritários, empresas participantes, modelos de financiamento, propriedade intelectual, transferência tecnológica e possibilidades de exportação determinará se a aproximação produzirá apenas maior relacionamento institucional ou se resultará em novos negócios e capacidades industriais.
A experiência brasileira demonstra que projetos internacionais de Defesa podem gerar efeitos muito além do contrato inicial quando incorporam participação da cadeia produtiva, desenvolvimento tecnológico e capacidade de sustentação no longo prazo.
Nesse contexto, a aproximação com a África do Sul representa uma oportunidade para a BID combinar cooperação tecnológica, acesso a mercados, segurança marítima e internacionalização industrial.
Mais do que ampliar a agenda diplomática, Brasil e África do Sul estão criando condições para uma relação em que Defesa e indústria podem funcionar como instrumentos de integração estratégica entre a América do Sul e a África.