Tecnologia e Inovação

Big Techs entram no centro da guerra dataficada e ampliam debate sobre autonomia tecnológica

Big Techs entram no centro da guerra dataficada e ampliam debate sobre autonomia tecnológica

Livro de Sérgio Amadeu da Silveira analisa a integração entre plataformas digitais, inteligência artificial e estruturas militares, levantando questões estratégicas sobre dados, nuvem, automação e responsabilidade no emprego da força

A guerra contemporânea não é travada apenas com aeronaves, navios, blindados e mísseis. Por trás das plataformas militares existe uma infraestrutura digital formada por servidores, data centers, algoritmos, sistemas de inteligência artificial e grandes volumes de dados. Essa transformação é o objeto central do livro As Big Techs e a Guerra Total: o complexo militar-industrial-dataficado, de Sérgio Amadeu da Silveira, publicado em 2025.

A obra parte de uma atualização do conceito de complexo militar-industrial, formulado pelo presidente norte-americano Dwight Eisenhower em 1961. Para Silveira, a estrutura tradicional de articulação entre Forças Armadas, indústria e Estado incorporou uma nova camada: as grandes corporações digitais, responsáveis por controlar plataformas, infraestrutura de nuvem, capacidade computacional e tecnologias de inteligência artificial.

O resultado, segundo o autor, é o que denomina complexo militar-industrial-dataficado — uma estrutura na qual os dados deixam de ser apenas ativos comerciais e passam a ocupar posição estratégica na condução das operações militares.

A discussão interessa diretamente aos estudos de defesa porque desloca parte do debate sobre autonomia tecnológica para uma infraestrutura menos visível: quem controla os dados, os servidores e os sistemas computacionais que sustentam as decisões militares?

Da plataforma digital à infraestrutura de guerra
Silveira organiza a obra em sete seções temáticas que percorrem a relação entre grandes empresas de tecnologia e conflitos armados. O autor aborda as plataformas digitais, os negócios de computação em nuvem, a inteligência artificial, a automação da identificação de alvos e a monetização da guerra.

O argumento é construído em três movimentos principais. O primeiro trata da dataficação, processo pelo qual atividades humanas e maquínicas são convertidas em dados. Para o autor, essa transformação constitui a base econômica das plataformas digitais e também um recurso potencialmente estratégico para operações militares.

A análise dialoga com o conceito de complexo militar-digital, desenvolvido por Roberto J. González, que descreve a articulação entre Forças Armadas, agências de inteligência, empresas de tecnologia, startups de defesa e universidades dedicadas ao desenvolvimento de inteligência artificial para fins militares.

Silveira amplia essa abordagem ao destacar o papel das corporações que controlam grandes volumes de dados populacionais e operam a infraestrutura computacional utilizada por governos e forças militares.

A questão central não é apenas quem desenvolve os algoritmos, mas quem possui a infraestrutura necessária para armazenar, processar e disponibilizar os dados em escala.

A nuvem possui território, servidores e dependências
Um dos pontos mais relevantes da obra é a desconstrução da ideia de que a computação em nuvem representa uma infraestrutura desterritorializada.

Data centers dependem de energia, instalações físicas, equipamentos especializados, redes de comunicação e cadeias internacionais de fornecimento. Além disso, estão concentrados em poucos países e operados por um número reduzido de grandes empresas.

Essa concentração ganha dimensão estratégica quando plataformas comerciais passam a integrar estruturas militares.

O livro destaca o Joint Warfighting Cloud Capability, contrato firmado pelo Departamento de Defesa dos Estados Unidos com Amazon Web Services, Microsoft Azure, Google Cloud e Oracle Cloud. O acordo, com valor potencial de até US$ 36 bilhões até 2028, formalizou a participação das principais empresas de computação em nuvem na infraestrutura digital das Forças Armadas norte-americanas.

A integração permite que serviços de armazenamento, processamento de dados, análise de imagens e aplicações de inteligência artificial sejam utilizados em diferentes níveis das operações militares.

Para os estudos de defesa, o caso evidencia uma questão que ultrapassa a aquisição de equipamentos: a dependência de fornecedores privados estrangeiros pode alcançar a camada computacional que sustenta comando, controle, inteligência e reconhecimento.

Gaza como estudo de caso
A terceira parte da análise concentra-se no emprego de inteligência artificial e infraestrutura digital nas operações militares israelenses em Gaza.

Silveira utiliza informações públicas, documentos e reportagens para discutir sistemas como Lavender e Where's Daddy?, associados à identificação e ao acompanhamento de alvos. Também aborda o Projeto Nimbus, contrato de computação em nuvem firmado entre Israel, Google e Amazon.

Segundo a obra, esses casos demonstram como dados provenientes de diferentes fontes podem ser integrados a sistemas de processamento automatizado para apoiar decisões operacionais.

O autor utiliza esse material para questionar os limites da automação no processo decisório militar. A preocupação central está na possibilidade de que a velocidade e a escala dos sistemas digitais reduzam o espaço destinado à avaliação humana, especialmente em situações nas quais decisões operacionais possuem consequências letais.

A discussão também alcança o conceito de sensor-to-shooter timeline, expressão utilizada para descrever a redução do intervalo entre a detecção de uma ameaça e o emprego de um armamento.

Quanto menor esse intervalo, maior a pressão para que sistemas automatizados processem informações e produzam recomendações em velocidade superior à capacidade humana de análise.

Automação e responsabilidade
A obra recorre às contribuições de Grégoire Chamayou e Achille Mbembe para discutir as transformações éticas e políticas provocadas pela guerra mediada por tecnologias digitais.

Na leitura apresentada por Silveira, a automação pode afastar o operador das consequências concretas de suas decisões. A utilização de padrões estatísticos e comportamentais para identificar possíveis alvos levanta questionamentos sobre os critérios utilizados, a qualidade das informações e a responsabilidade atribuída aos diferentes agentes envolvidos.

O autor também utiliza o conceito de “megamáquina”, associado a Lewis Mumford, para descrever a estrutura sociotécnica formada por servidores, processadores, data centers, sistemas de inteligência artificial e organizações humanas.

A crítica não se limita ao algoritmo. Ela alcança toda a cadeia necessária para que a decisão automatizada exista.

Essa abordagem é relevante porque evidencia que sistemas autônomos ou semiautônomos não funcionam isoladamente. Eles dependem de infraestrutura industrial, energia, conectividade, software, modelos computacionais e profissionais capazes de desenvolver e operar essas tecnologias.

O debate não elimina a responsabilidade humana
Um dos pontos mais importantes da análise crítica apresentada na obra é a necessidade de distinguir automação de transferência completa de responsabilidade.

O pesquisador King, citado no texto de referência, sustenta que sistemas como Gospel e Lavender não necessariamente retiram dos comandantes humanos a responsabilidade legal e ética pelas decisões. Os parâmetros dos sistemas são definidos por pessoas, assim como os critérios utilizados para validar resultados e autorizar ações.

Essa perspectiva qualifica o argumento de Silveira. A automação pode alterar a percepção da responsabilidade, acelerar decisões e criar uma falsa aparência de neutralidade técnica, mas isso não significa necessariamente que a responsabilidade deixe de existir.

Para profissionais militares e formuladores de políticas públicas, a questão é decisiva: quem estabelece os parâmetros, quem supervisiona o sistema, quem valida suas recomendações e quem responde por eventuais falhas?

O debate sobre controle humano significativo em sistemas autônomos letais permanece, portanto, diretamente relacionado à governança tecnológica e ao direito internacional aplicável aos conflitos armados.

A dimensão estratégica para o Brasil
A principal contribuição da obra para o debate brasileiro está na discussão sobre dependência tecnológica.

O Brasil possui programas estratégicos que dependem de sistemas digitais, comunicações seguras, processamento de dados, inteligência artificial, sensores e infraestrutura de comando e controle. Parte dessas capacidades utiliza componentes, softwares e serviços desenvolvidos por empresas estrangeiras.

Essa dependência não representa, por si só, uma vulnerabilidade absoluta. Entretanto, pode se tornar um fator crítico em situações de crise, especialmente quando envolve serviços essenciais cuja continuidade depende de fornecedores externos, infraestrutura localizada fora do país ou condições comerciais sujeitas a restrições.

Para a Base Industrial de Defesa, o tema amplia a compreensão sobre autonomia tecnológica. Não basta desenvolver plataformas militares nacionais se a infraestrutura digital que sustenta sua operação permanece integralmente dependente de empresas estrangeiras.

A soberania tecnológica passa a envolver também:

infraestrutura de nuvem;
centros de processamento de dados;
componentes eletrônicos;
sistemas operacionais e softwares críticos;
inteligência artificial;
cibersegurança;
armazenamento e proteção de informações estratégicas.
Essa agenda possui conexão direta com iniciativas brasileiras voltadas à proteção de sistemas críticos, ao desenvolvimento de empresas estratégicas de defesa e à ampliação da capacidade nacional em ciberdefesa e comando e controle.

Limitações e pontos para novas pesquisas
A obra apresenta uma contribuição relevante ao organizar, em uma mesma estrutura conceitual, fenômenos que normalmente são tratados separadamente: contratos militares, economia de plataformas, inteligência artificial, computação em nuvem e automação da guerra.

Entre as limitações apontadas na análise estão o foco predominante nos Estados Unidos e em Israel e a ausência de uma abordagem comparada mais ampla sobre outros modelos de integração entre tecnologia e defesa, especialmente os desenvolvidos por China e Rússia.

Também merece atenção a tendência de tratar as grandes empresas de tecnologia como um bloco relativamente homogêneo. Diferenças de estratégia empresarial, contratos, políticas internas e relações com governos podem produzir comportamentos distintos entre as corporações.

Essas lacunas não anulam a contribuição do livro, mas indicam caminhos para futuras pesquisas sobre a formação de complexos tecnológico-militares em diferentes países.

Mais do que uma discussão sobre algoritmos
A principal mensagem de As Big Techs e a Guerra Total é que a transformação tecnológica da guerra não pode ser compreendida apenas pela análise dos equipamentos utilizados no campo de batalha.

A guerra dataficada depende de uma arquitetura industrial e digital que envolve empresas privadas, Estados, universidades, centros de pesquisa, fornecedores de hardware e operadores de infraestrutura.

Para o Brasil, essa discussão é particularmente relevante. A ampliação da autonomia estratégica exige considerar não apenas a fabricação de aeronaves, navios, veículos e sistemas de armas, mas também a capacidade de controlar os dados, processar informações e sustentar tecnologicamente as decisões de defesa.

A obra de Sérgio Amadeu da Silveira contribui para esse debate ao propor uma categoria de análise que aproxima economia digital e estratégia militar. Seu principal alerta está na necessidade de compreender quem controla a infraestrutura sobre a qual operam as tecnologias de defesa.

Em um ambiente no qual inteligência artificial e computação em nuvem assumem papel crescente na condução das operações, a soberania tecnológica deixa de ser apenas uma questão de possuir equipamentos nacionais. Passa a envolver, cada vez mais, a capacidade de compreender, desenvolver e controlar a infraestrutura digital que sustenta o poder militar.

 

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