Argentina avalia três submarinos e Itaguaí pode ganhar papel em eventual programa de exportação
Projeto de Orçamento argentino prevê até US$ 2,3 bilhões para a aquisição de três submarinos, enquanto a infraestrutura construída pelo PROSUB surge como possível alternativa para a produção caso a proposta francesa avance
A Argentina deu um novo passo para recuperar sua capacidade submarina ao incluir no projeto de Orçamento de 2027 uma autorização para operação de crédito de até US$ 2,3 bilhões destinada à aquisição de três submarinos convencionais. A medida ainda não representa uma contratação, mas coloca o programa no planejamento financeiro do país e abre uma nova possibilidade para a indústria naval brasileira.
Entre as alternativas avaliadas por Buenos Aires estão propostas da francesa Naval Group e da alemã TKMS. A solução francesa está associada à família Scorpène, mesma plataforma que serviu de base para os submarinos convencionais da Classe Riachuelo construídos no Brasil no âmbito do Programa de Desenvolvimento de Submarinos (PROSUB).
É nesse ponto que o Complexo Naval de Itaguaí passa a ter relevância para a Base Industrial de Defesa brasileira. A infraestrutura construída ao longo do PROSUB criou no país uma capacidade industrial específica para construção, integração e testes de submarinos, acompanhada pela formação de mão de obra especializada e pela nacionalização de parte da cadeia de fornecedores.
A possibilidade de utilizar essa estrutura em um eventual programa argentino foi colocada publicamente pelo ministro da Defesa, José Múcio Monteiro, em junho. Uma eventual produção em território brasileiro dependeria, entretanto, de uma série de definições comerciais, financeiras e industriais entre os governos envolvidos, o fabricante escolhido e as empresas participantes.
PROSUB cria ativo industrial além da demanda brasileira
O principal aspecto da possível encomenda argentina para a BID não está apenas no número de submarinos, mas na oportunidade de utilizar uma infraestrutura criada originalmente para atender às necessidades da Marinha do Brasil em um mercado externo.
O ciclo convencional do PROSUB já resultou nos submarinos Riachuelo, Humaitá, Tonelero e Almirante Karam, consolidando competências brasileiras em engenharia naval, fabricação de estruturas, integração de sistemas, testes e manutenção de plataformas submarinas.
Uma eventual encomenda estrangeira poderia contribuir para dar continuidade à utilização dessa capacidade industrial e ampliar o mercado para empresas brasileiras envolvidas na cadeia de fornecimento.
O impacto potencial alcançaria segmentos como engenharia, metalurgia, eletrônica, mecânica de precisão, sistemas embarcados e serviços especializados. A experiência acumulada também representa um ativo para futuras oportunidades internacionais envolvendo plataformas navais de alta complexidade.
A própria estrutura do PROSUB foi concebida com componentes de transferência de tecnologia e capacitação industrial. Segundo as informações reunidas no material, mais de 250 engenheiros e técnicos da Marinha, da NUCLEP e da Itaguaí Construções Navais foram qualificados em atividades relacionadas à construção dos submarinos convencionais.
Argentina ainda não definiu fornecedor
Apesar do avanço orçamentário, a aquisição permanece em fase de definição. O valor de US$ 2,3 bilhões representa o limite previsto para uma operação de crédito e não significa que os recursos já estejam contratados ou que exista um fornecedor escolhido.
A decisão deverá considerar fatores como financiamento, configuração dos submarinos, sistemas de armas, transferência de tecnologia, participação industrial argentina e local de construção.
A relação entre Argentina e o modelo Scorpène, contudo, não é recente. Em 2023, autoridades argentinas visitaram a Itaguaí Construções Navais para conhecer o processo de construção dos submarinos brasileiros e avaliar aspectos relacionados ao financiamento e à transferência de tecnologia.
A cooperação também avançou no campo operacional. Durante o exercício Fraterno XXXIX, em agosto de 2026, militares argentinos participaram de atividades a bordo do submarino brasileiro Humaitá durante sua passagem por Mar del Plata.
Uma possível nova frente para a indústria naval de Defesa
Caso a Argentina escolha a proposta francesa e seja definida a participação brasileira na construção das unidades, Itaguaí poderá desempenhar um papel que ultrapassa a função de infraestrutura estratégica nacional.
O complexo poderia se transformar em uma plataforma de produção para um programa internacional, permitindo que parte dos investimentos realizados pelo Brasil ao longo do PROSUB seja convertida em capacidade de exportação.
Para a BID, esse movimento teria relevância porque exportar uma plataforma submarina envolve mais do que a entrega de um produto final. A operação pode gerar demanda para fornecedores nacionais, serviços de engenharia, manutenção, integração de sistemas e outras atividades de elevado conteúdo tecnológico.
Por enquanto, porém, trata-se de uma possibilidade. A Argentina ainda precisa definir o fornecedor, estruturar o financiamento e estabelecer os termos industriais do programa. O processo mostra, entretanto, que a capacidade construída em Itaguaí começa a ser observada também sob uma perspectiva de mercado externo.
Se concretizada, uma eventual encomenda argentina poderá representar um dos primeiros testes da capacidade brasileira de transformar a infraestrutura e o conhecimento acumulados pelo PROSUB em uma plataforma efetivamente exportadora de sistemas navais de alta complexidade.